10/28/2014

Morre o grande compositor Leite

Morreu neste domingo Leite, da dupla sertaneja Café com Leite. O artista, que vivia com ajuda de aparelhos nos últimos 16 anos, não resistiu ao quadro de infecção generalizada que atacou seu corpo na última década. Com viúvas por todo país, sua morte infelizmente não causa muita repercussão, já que foi esquecido pelas novas gerações, conhecedoras de um ou dois sucessos da dupla, no máximo.

Conheça a história de Café com Leite

A dupla foi formada em 1894, no sudeste do Brasil, e logo suas canções ditavam o modo de vida de todo o território nacional, apesar de suas composições serem de cunho regional, escritas para um pequeno círculo de admiradores. O primeiro grande sucesso foi “De gola, assim que eu vou, meu amor”, responsável pela hegemonia se comparado ao de outros artistas. Na mesma época lançaram “De cabresto e arreio pelo Brasil”, que contavam como era a trajetória do sertanejo e da população afastada dos grandes centros, onde predominavam as oligarquias. Outras músicas marcantes foram “Do império pra cá nada vai mudar”, “Estampa o selo”, “Doente não dá”, “Prudência” e “É uma pena”. Antes de se separarem pela primeira vez, em 1930, gravaram “Derruba a coluna”, composta por um macaense.
Rumores apontam que decidiram seguir carreira solo por discussões internas. Alguns colunistas da época afirmam que foi ciúmes, outros divergências no cachê, ou até que brigavam para ver quem seria segunda voz. O certo é que antes de romperem já não faziam tanto sucesso e o vanerão despontava como preferência popular. Não era a primeira vez que o sul entrava no caminho deles, a canção “Sobrinho” foi praticamente imposta no repertório dos dois, assim como “Versalhes”, de compositor paraibano.
Em carreira solo, Café conseguiu emplacar alguns sucessos, inclusive de alcance internacional, como “Se não vai pra lá vai queimar”, se mantendo ativo durante toda a carreira, com lançamentos a tempo regulares. Até hoje é lembrado por “Ouro”, “Martins & Camargo” e “Locomotiva”, todas desta época. Leite manteve um trabalho mais discreto, porém marcante e voltado ao humor, como a paródia “A constituição é nossa” (que ironizava o vanerão “Constituição”, que teve participação de Café na composição) e o hit “Acre, Roraima e Amapá”.

Reconciliação e fim

Com o fim da onda de vaneirão os dois continuaram em carreira solo por um tempo, mas todas as gravações foram fracassos de público e crítica, vendendo pouquíssimos álbuns e quase sem fazer shows. A virada veio em 1985, quando um artista maranhense gravou “Eu sou direto”, obra prima de Leite. Café resolveu se aproximar e gravaram “Meu fusca”. Na ocasião um carioca ameaçou tomar as paradas de sucesso com “Roxo”, mas não teve espaço. Logo depois estourou “É real!”, com arranjos de samba e um ar de pós-moderno inédito no Brasil. Apesar dos arranjos, é uma composição típica de Café, que não abre mão dos preciosismos mesmo quando resolve inovar.
Fizeram shows por todo Brasil, sucesso total, mas logo depois Leite adoeceu, e Café resolveu ficar ao lado do companheiro, talvez para compensar os anos em que estiveram brigados. Como um estava sem forças para gravar, Leite tentava ajudar na composição, mas as letras eram todas um fracasso, como a releitura de “Serra serra serrador”. Foi aí que o país conheceu a ciranda e o coco, ritmos nordestinos que contaminaram todos os brasileiros.

Antes de morrer, Leite escreveu “Bonito e cheiroso”, "Leite em pó" e "Aeroporto" - sendo as duas últimas um completo fracasso, enquanto Café gravava “Sem água na pia” e “São Pedro”, ambas com arranjos do companheiro.

10/20/2014

Eleições

Minha memória mais antiga de racionalização sobre política vem do início dos anos 1990, logo após o impeachment de Collor, eu estava com 12 anos e foi um ano marcante pra mim - meu pai morrera quatro meses antes do episódio e eu abandonara os estudos na mesma época. Lembro de estar sentado à mesa com um familiar mais velho e escutar o seguinte argumento, acompanhado de um balançar de cabeça melancólico: "votei no Collor por que era melhor do que votar no Lula". Não entendi muito bem a lógica, mas achei que era por que não tinha experiência com assunto.

Depois disso fui acompanhando e me parecia que urbanizar era bom, afinal era o que Maluf fazia, todo mundo afirmava que ele era do tipo "rouba mas faz" e seguia sendo eleito e construindo. Nutro uma admiração por sua retórica, mas para por aí. também reconheço que algumas de suas obras foram bem úteis. e é isto. Achei abominável ouvir ele dizer, em rede nacional, "quer estuprar, estupra, mas não mata". Parece que colhemos os frutos até hoje.

No governo do estado minha lembrança tem espaço para Quércia, mas só de ouvir dizer, sempre estudei em colégio público estadual e acabava ouvindo falar dele. Se me tirar por base, parece que foi uma boa gestão. Tempos depois, eu já fora da escola, foi instituída a progressão continuada. Um erro que não consigo nem avaliar. O único estímulo que tínhamos para estudar era justamente o medo de repetir de ano - eu em especial, já que minha mãe era muito brava, e isto foi tirado da gente. Uma argumentação construtivista justificaria, mas nenhuma preparação foi feita.

Minha experiência posterior como educador me mostrou a armadilha armada, e pude presenciar alunos competindo para ver quem passava com menor nota, ou quem conseguia fazer desavença maior com o professor. Este modelo foi implantado em São Paulo, mesmo estado que hoje brada ser o mais culto, que negros, nordestinos, pobres não sabem votar. Podemos presenciar uma púbere paulista bradar que não há liberdade de expressão e que ela é cerceada em seus direitos, isto em um veículo de alcance nacional. É no mínimo paradoxal, porém lamento que ela não conseguirá entender. Este mesmo grupo de intelectuais apela para fé quando culpa São Pedro pela falta d'água, mas está é outra história.

Não sou eleitor do PSDB, nunca fui, mas aprovei o primeiro mandato de FHC. Mantenho admiração por sua gestão, assim como pela de Itamar Franco, que teve peito para fazer a URV, mesmo diante da incredulidade geral (sim, o PT não foi o único a se mostrar contra). Meu primeiro voto para presidência foi no ano de 1998, quando FHC disputou reeleição e votei nele. Me arrependo sistematicamente deste voto, como nunca me arrependi de nenhum outro. A coisa que mais me marca neste período é a explosão de uma plataforma da Petrobrás, a P-36. Orçada em 350 milhões de dólares, me fez conceber a primeira teoria conspiratória: estão querendo desvalorizar a Petrobrás para vendê-la mais rápido e barato! Nunca comprovei, nem demovi, a teoria, mas sei que não sou o único a pensar nisto - à época e hoje. Relendo os arquivos da revista Veja, também noto um detalhe que me escapou: a bolsa despencava com a possibilidade de reeleição.

Em 1999 entrei com orgulho no melhor colégio público do Brasil, a ETESP. Eu era um dos mais de 5mil a disputarem 140 vagas na escola e fui aprovado. Junto com estes 140, e mais um monte de 140 de veteranos de outros anos, e de outras escolas técnicas, paramos a Avenida Paulista em pelo menos três ocasiões gritando "Educação, não se discute, privatize a D. Ruth". Eu já tinha quase vinte anos, meus veteranos mais velhos 18.

"Iniciei" minha carreira com as letras e com o jornalismo na mesma época, quando editei o Tramp Drops junto com meu amigo de pena e de bar André Gonçalves. Meu artigo mais contundente foi sobre a posse de Marta como prefeita. Mal assumira a cadeira e um apresentador de telejornal da tarde chamava ela de incompetente, já que as ruas estavam todas esburacadas. Era mês de março e eu desejava que ela estivesse ajeitando as contas do município, por isto não tapara ainda. Felizmente não me decepcionei: ela pagou títulos da União que estavam atrasados há muito tempo, colocando Sampa City em dia com o orçamento. Mesmo assim, as pessoas reclamavam.

Lula foi eleito, e com meu voto. Deu continuidade aos planos de FHC, instituiu o Fome Zero e pedia doações permanentes. Demorou a entrar na minha cabeça a razão do governo pedir doações, por que ele mesmo não se virava? Ainda não estava claro que qualquer um pode ajudar o próximo e de certa forma ele estava emulando isto. Depois veio outros programas: Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, Pronatec, Prouni, Ciências sem Fronteiras, aumento do número de bolsas de pesquisa científica, PAC's etc... sim, há um nevoeiro sobre o que foi Dilma e o que foi Lula, que mal há nisto? Afinal, são doze anos de poder continuado, para que mudanças bruscas? Time que está ganhando não se mexe.

Neste nimbo eu saí de onde nasci para viver em outros lugares, conhecer novas pessoas, experimentar novos estilos. Minha ideia era uma viagem longa, mas não saí do sudeste. Mesmo assim, minha vivência foi muito rica, e conheci (não pessoalmente) César Maia, que encaixava na categoria de poder tão extenso quanto controverso, mesmo assim as pessoas votavam nele.

O tempo passou, voltei pra São Paulo, vim para Brasília, chegaram novas eleições, as redes sociais surgiram, invadiram as vidas das pessoas, dispositivos eletrônicos móveis ganharam mercado, conexão de internet, e gosto popular. Difícil é ver alguém que não tenha seu perfil online, que post, comente, compartilhe. Junto venho uma noção de tudo pode. E é exatamente onde estamos.

Simpatizantes de um partido não se furtam em achincalhar os do outro, regionalismos viram monstros encarnados em pessoas que pareciam pacíficas até então. O deboche, escárnio, agressividade, e demais comportamentos correlatos transbordam das ruas e ganham palanques, bancadas, debates. Um não se sente constrangido em maldizer a vida pregressa do outro, orientações pessoais são tranquilamente avacalhadas e condenadas ao inferno, quando menos, quando muito a pauladas e assassinatos.

Temo chegarmos a vias de fato após o termino da eleição, com um grupo vociferando contra a morte da democracia, a fraude nas urnas, e a necessidade de uma revolução armada, já que vários defendem como direito divino carregar uma arma para ser usada contra quem ameace. Temo que regionalistas cuspam todo ácido de sua língua contra aqueles que creiam com convicção sejam inferiores. Uso palavras até leves para o apocalipse que temo. Mas pode ser que tudo amanheça tranquilo, e seja festejada a democracia e a escolha da maioria. ponto final feliz.

8/05/2014

Bem vindo a BSB!

Para falar de Brasília, chamar turistas e que tais, poderíamos falar do planejamento da cidade concebida por Lúcio Costa. Em 1893 o astrônomo Luís Cruls fez diversos estudos do local e apresentou um projeto de represamento do rio Paranoá, que corre pelo Planalto Central. A ideia de Cruls era resolver o problema de baixa umidade que assola a região alagando a área que ficava coberta de água na estação chuvosa, o que não causaria impacto ambiental muito drástico. Tendo por base o projeto, em 1956 Lúcio Costa e Niemeyer começaram a desenhar o Plano Piloto, com seus setores organizados e prédios que parecem obras de arte.
Poderíamos falar que o Lago Paranoá é um dos maiores lagos artificiais do mundo, com 48Km² de extensão, profundidade máxima de 38m e quase 80Km de perímetro. Estes números significam uma usina hidroelétrica na barragem, praias artificiais lindas – como Prainha e Piscinão do lago Norte -  o Iate Club, com veleiros para todo gosto e tamanho. No lago são encontradas aves aquáticas, lontras, capivaras, e até uma espécie nativa de crocodilo, o jacaretinga – que não costuma atacar humanos. Além de velejar, mergulhar, encontrar amigos para um churrasquinho na margem, dá para ficar só admirando o lugar, meditando em um fim de tarde, de cima da ponte JK, ou na “quebra da treze”, point da galera no Lago Norte.
Intrigante sobre Brasília é a fama de que a cidade não tem esquinas. E não tem. É uma infinidade de rampas, elevados, subidas, descidas, rotatórias (“balão” por aqui) e pequenos anéis viários (apelidados “tesourinhas” pelos candangos). Para ser sincero, nem semáforo tem direito, pode-se atravessar a cidade inteira sem ter que parar em um. Intrigante mesmo, mas que ninguém fala, é que as edificações do Plano Piloto não têm muros, e muitas estão sobre os pilotis de Niemeyer. O intuito é não ferir o “direito de ir e vir” do cidadão. Este tipo de curiosidade dá tanta liberdade que é possível ver os jovens conversando e se divertindo embaixo dos prédios ou arredores.
Chama a atenção de quem chega o fato das ruas não terem nomes. “Onde você mora?” é seguido por uma careta e um “que?” quando tem resposta: SHIN QL 10, (na 13 do Lago Norte pros íntimos). A balada pode ser na 306 sul, ou 202 norte. Funciona assim: a cidade é um “avião”, o Eixão forma as asas (sul e norte) e o Eixo Monumental forma a nave, a Praça dos Três poderes é a cabine. No cruzamento dos dois eixos começa uma contagem nas direções norte e sul, de 1 a 16. No sentido leste (L na linguagem aeronáutica) e oeste (W) ficam as quadras e vias paralelas ao Eixão. No L estão as 200, 400, 600, 800, no W 100, 300, 500, 700, 900. Combinando as coordenadas temos o endereço – lembra da primeira balada? Indo para o sul, entre na sexta quadra e suba até a segunda paralela. Entendeu? Não? Só chegar, é muito fácil.
Mas falarei só uma coisa: não deixem de olhar para o patrimônio natural de BSB, o Céu!

*nota: em 2007 o arquiteto mineiro Carlos Fernando de Moura Delphim protocolou o pedido de Patrimônio Natural do Céu de Brasília no  Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).




2/12/2014

O meu 禅空 - VII

Recentemente postei um diálogo da série “Diálogo” em que as duas personagens conversavam sobre a diferença entre andar o caminho e ser o caminho. Apesar da referência ser à felicidade, a pequena metáfora pode ser utilizada em qualquer circunstância.
Os esquetes são sempre bem pequenas -uma fala de cada, o velho e o jovem, intercaladas por algum sentimento dos dois- o que abre margem para muitas interpretações. Diversos amigos já chegaram a conclusões diferentes sobe o mesmo texto, sempre positivas. Acontece claro, de um ou outro não chegar a nenhum, mas como este fala sobre “caminho” e “felicidade”, abrirei uma exceção e explicarei com mais detalhes (e por metáforas, claro, já que não é uma fórmula mágica).
Imaginemos o seguinte cenário - uma estrada longa, um templo ao fim dela, com um sábio dentro. Neste panorama, podemos chegar em muitas, mas iremos nos ater a três situações:
*Ser um viajante que trilhará o caminho em direção ao templo, a fim de fazer as perguntas certas ao sábio e atingir a felicidade. A estrada pode ser tortuosa, íngreme, esburacada, cheia de curvas e bifurcações, pode ser direta, lisa, plana e agradável. A viagem pode ser emocionante, perigosa, calma, monótona. Pode ser até tudo isto misturado e você chegar ao fim, ou desistir no meio. Pode atingir a felicidade, ou se frustrar. Não depende de ninguém, além de si próprio.
*Ao trilhar a estrada, construída segundo sua própria existência, também existe a possibilidade de chegar ao templo e não conseguir entrar, ou, se entrar ficar perdido na hora da pergunta, se sentir intimidado pela sabedoria do mestre. Desesperador, não?
Nas duas simulações o objetivo ficou dependente de fatores externos, e foi projetada em alguma coisa distante: o mestre. São armadilhas que não asseguram êxito, estão fora de seu campo de controle.
A terceira é a mais simples para definir, todavia, muito difícil de internalizar, pois infere em se tornar tudo que está ao redor e pode levar a felicidade. O caminho chega ao templo sempre, independente de alguém trilhá-lo ou não. O caminho não se afeta quando alguém diz “está difícil, está muito fácil”. Ele simplesmente está lá, sendo o que nasceu para. E no fim terá o sábio passeando ao seu redor, em regozijo e contemplação, fazendo do caminho o motivo de sua alegria.

Sendo o caminho, não importa o quanto você se desvie, a meta está do outro lado, mas como você é um em toda a extensão, a meta já está, o que resta é ajustar a si próprio, para ser reto, harmônico, direto, e bonito, sem nunca se perder ou desistir.

7/05/2013

este medicamento não deve ser usado em suspeita de dengue

ps2alguém já parou e refletiu sobre o significado destas palavras? elas querem dizer “os sintomas que você está tratando podem não ser gripe ou resfriado, podem ser dengue. se você mascarar estas reações, com certeza irá morrer”.

estas palavras podem ser perfeitamente adaptadas ao que ocorreu ontem no leblon e nas repercussões: pessoas reclamando que a polícia dispersou os manifestantes com bombas de gás e balas de borracha, repórteres foram agredidos, alegações de que a mídia manipula e é (junto com a força policial) fascista.

não vou deslegitimar o protesto, que isto fique bem claro, farei só umas considerações, a conclusão deixo a cargo do discernimento de cada um, afinal, não quero ser rotulado de mídia manipuladora, ou reaça (como eu detesto esta palavra, junto com ad hominem, falácia e afins, recursos assaz típicos de péssimos retóricos).

a primeira reclamação é sobre a brutalidade policial: não admito violência de qualquer natureza, e pra mim é uma agressão ouvir isto como se fosse a grande mazela do estado. me condoo aos que tiveram os olhos irritados, o corpo alvejado e marcado pelas balas de borracha, aos que tomaram golpes de cassetete e foram empurrados com escudo pelo choque. gostaria de lembrar-lhes que na favela (tem uma bem ali, subindo a niemeyer) os moradores são dispersados com rajadas de fuzil para o alto, com pescoções, com hélices de helicópteros sobre suas cabeças. eu gostaria que vocês atacassem a doença, não só o sintoma que chegou a vocês.

meu segundo ponto é a repulsa contra jornalistas. em qualquer tempo, em qualquer cultura, em qualquer lugar, a regra é clara: não ataque o mensageiro. não ataque o mensageiro. não ataque o mensageiro. três vezes pra ser verdadeiro. não ataque o mensageiro. a quarta pra casar lógica com realidade. eu sempre critiquei a mídia, e o que eu fiz? comecei escrevendo meus fanzines, mostrando onde estavam os erros, cresci, fui conhecer visões e depois me formei em jornalismo. se a mídia é manipuladora, seja humilde e inteligente para saber discernir o que é fato e o que é falso. não existe notícia ficcional, e se você não consegue entender isto a culpa não é da mídia, nem do meio e nem da educação, é única e exclusivamente sua.

acusam a comunicação e o estado de fascista, mas praticam a censura, como chama isto? é interessante notar que ao passo que os bem nascidos reclamam da imprensa a primeira coisa que os menos favorecidos gritam quando a polícia chega esculachando é “vou chamar o jornal! vou ligar pra globo! vou ligar pra record!”. muitas vezes nós (sim, eu também! morei vinte anos na cohab e sei bem como é!) não temos quem nos defenda, por que vós estais muito ocupados com vossos dramas. não recrimino, nem discrimino, cada um sabe onde dói mais.

isto vale para aquele rapaz que virou a cabeça da rainha na guilhotina, que é julgado por ser funcionário de uma emissora, por passar férias em cancun. oras, se vocês podem viajar à disney com a grana do pai, por que o cara não pode ir ao caribe com a grana que ele batalhou?

reitero que não quero deslegitimar o protesto, pelo contrário – fico muito feliz que estejam lutando pelo que acreditam estar certo e ser o melhor para o próximo, este é bem meu ponto: não olhem apenas para o próprio umbigo, olhem ao redor, pese o que será de bem comum.

temo por meus amigos que estavam no leblon ontem, mas terei imensa vergonha se algum deles atacou a imprensa. a mesma vergonha que sinto quando compartilham capas falsas da veja.

caso acha suspeita de dengue, vá à doença, não em apenas um sintoma. sob risco de perder a vida.

6/12/2013

anacronia futura



bastante tempo você me acompanhou
regressando as memórias vejo, quem te procurava era eu
universo físico e temporal
na perfeita união nos colocou
ainda que não percebas por insegurança

eufemismos são desnecessários
te mostrarei todo dia o quanto
amo

5/22/2013

vida

sentou-se de frente ao teclado e acendeu o último cigarro do maço. refletiu se deveria comprar mais um ou dar um tempo. o cinzeiro molhado cheio de guimbas apagara seu pirilampo pela metade, o que o fez refletir sobre a momentaneidade da existência.

vaga ideia sobre escrever, tamborilava o notebook. há muito ideias claras não saiam da cachola, apenas comentários esparcos sobre um acontecimento e outro postado por amigos no facebook. se outrora escrevera contos, migrara para poemas e abandonara por amores fugazes.

decidido a virar, cortou o cabelo e raspou a barba. visual limpo, sente a leveza de outra pessoa ao espelho. um copo de bourbon, meio litro e dois dias, seguia feliz a caminhar a estrada, inerte.

1/09/2013

segue o diálogo

A abstração do jovem não alcançava o que o velho dizia. Mesmo assim, não lhe passava que fosse sandice. Há muito aprendera com o mestre não colocar culpa em outrem por suas limitações.

- Como poderei transformar ideias opostas em complementos, fazendo agirem harmonicamente?- estava cada vez mais confuso.

- Não se duvida, se aprende. O paço do fracasso é a tentativa, não se é querendo ser.

- Por favor, mestre, seja mais específico... – o jovem estava desesperado.

- Seja independente agindo com os demais, não somos o oásis, não somos o deserto, somos oásis em desertos irmãos, isto está dentro de cada um. Contempla a vida interagindo, não atue sem pensar, nem pensa muito sem ação. Esqueça o que ser, apenas seja, tua transformação no que almeja não está ancorada em nada além de ti. Quando vivemos a vida em antagonismo, forças sempre entrarão em choque. Se pensarmos em oximoro, antes o que era oposição tornar-se-á fluidez.

12/18/2012

segue o diálogo

Ao passarem por uma pequena cidade, o jovem notou dois homens se desentendendo por um motivo qualquer. Por mais que gritassem, não chegavam a um acordo. Para o aprendiz tratava-se de algo grave, mas o velho aparentemente não dava a menor importância. Depois de caminharem ao centro do vilarejo, se abastecerem com provisões e encontrarem um lugar para acampar, começaram a conversar:

-Mestre, como podemos ganhar uma discussão?

-Tu estás a falar sobre os dois citadinos que avistamos mais cedo? – perguntou o velho, enquanto preparava algo no fogo improvisado.

-Sim, por mais que se esgoelassem, não pareciam chegar a um acordo. –respondeu, admirado, pois pensara que o Mestre não havia notado o desentendimento- Deve ter algum jeito de ganhar uma discussão.

-Se fores titular desinteligência discussão, digo-te que não há quem saia ganhando. Todavia cheguem a um remate, ambos perdem.

-Como é possível? – o garoto estava cada vez mais confuso.

-No desenlace quem tomar prejuízo guardará rancor em seu coração, e quem sair em crida vantagem, perderá um possível amigo, ou a oportunidade de engrandecimento através da gentileza ao próximo. – o jantar estava quase pronto.

-E qual seria a outra forma de discussão? – ele deveria preparar os pratos, mas tinha medo de perder a explicação. Tratou de se apressar, apesar do zelo aprendido com o velho.

-Discutir em seu sentido etimológico quer dizer debater, conversar ao redor de um assunto. Caso seja esse o momento, chamemos assim, todas as partes saem venturosas, porquanto se sabendo manter uma linha de humildade e raciocínio belo os envolvidos aproveitarão a chance de aprendizado.

Era uma refeição simples, que comeram em silêncio enquanto o jovem aprendiz digeria os novos aprendizados.

12/05/2012

algumas (poucas) palavras sobre o feminismo

feminismoa ideia de feminismo surgiu em meados do século XIX reivindicando direitos femininos, e não visava (como não visa) suplantar nenhuma questão masculina, apenas colocar mulheres em pé de igualdade.foi se transformando em quase duzentos anos de existência, devido à conquistas e à própria mutação do cenário social.

suas primeiras lutas davam conta do direito ao voto, livre circulação por todos lugares, e -por fim- direitos trabalhistas justos e igualitários. desnecessário dizer que o voto e a participação esportiva (como exemplo de acesso à diferentes ambientes) foram plenamente atingidos, apesar de algumas comunidades tradicionalistas ou em certo sentido opressoras (seja por religião ou costume) se mostrarem resistentes e imporem condições às cidadãs.

com relação ao trabalho, esta é uma luta moderna, e a “emancipação” que ouvimos falar geralmente trata da mulher de classe média, já que as classes menos abastadas sempre tiveram a figura da doméstica e da lavadeira –para nos restringirmos nestas duas personagens invisíveis. dentro deste parâmetro, a mulher ainda ganha em média 70% menos que o homem, apesar de ter atingido uma escolaridade média relativamente maior. possivelmente nossas heroínas anônimas que sustentam os lares mais humildes “puxam” esta média para baixo.

uma vitória, que não é necessariamente fonte do feminismo, apesar de alardeada por todos os cantos como, é a lei maria da penha. aplaudida pela comunidade mundial, o que antes era exclusivamente voltado a violência doméstica contra a mulher, hoje pode ser lida como defesa também de homens e crianças que sofrem pressões físicas ou psicológicas, prova de que o movimento trata realmente de igualdade.

há muita confusão e dúvida sobre o que é feminismo de fato, e onde acaba uma coisa igualitária e começa outra extremista. não vou me prender a isso, pois não é a que me proponho, porém, vou rebater algumas coisas que são ditas por ai de forma bem equivocada:

*elas querem igualdade, mas se aposentam cinco anos antes. – sempre achei este argumento uma bobagem e é tão simples rebate-lo: amigos, nós devemos lutar para diminuir nosso tempo de trabalho/contribuição, não aumentar o delas;

*elas não querem servir o exército. – olha, nem eu quis e quase ninguém que eu conheço quer, a gente deveria pedir nossa “desobrigação”, não a obrigação delas.

uma coisa interessante no feminismo moderno é agregar outros movimentos e o respeito e cordialidade mútuos, principalmente o lgbt*. o próprio termo citado é mostra: gay a princípio se desdobraria a homossexuais masculinos e femininos, mas foi sub-dividido em lésbicas e colocado antes na sigla. o |t| também originou a luta feminista trans(sexual), ajustadas à “cis” (pessoa em que sexo/gênero/sentimento interno e subjetivo estão “condizentes” ou “alinhados”). outra causa pleiteada por muitas feministas ao redor do mundo (e no brasil) é o direito paterno de uma licença maior, pelo menos quatro meses, quando nasce o bebê.

claro, nem tudo são flores, existem alguns temas que geram controvérsia, como prostituição e pornografia. aborto era pauta unânime na luta feminista, a mulher poder regular o próprio corpo, todavia já existem militantes “pró-vida” (contra o aborto), apesar de serem em quantidade mínima. algumas outras questões não são ponto pacífico, da mesma forma, mas não entrei em detalhes, não tenho a pretensão de esmiuçar celeumas.

reiterando, o feminismo não pretende caçar nenhum direito masculino, não é uma guerra declarada aos homens, não é uma coisa antiquada e nem buscada por pessoas chatas. trata-se apenas de pedir igualdade entre os gêneros.

ps: este não é um texto definitivo, não é livre de erros, e nem pretende encerrar uma verdade absoluta. tendo em mente estas considerações, ele será uma exceção, passando por revisões e atualizações, privilégio que nenhum outro escrito meu jamais teve.